Nativas vs Exóticas, é possível fazer essa distinção em um mundo conectado?

Quais são os problemas das espécies Exóticas, como a dispersão começou e com o que devemos nos preocupar.

Hoje estamos conectados, milhares de aviões, navios carros e caminhões transitam dispersando a produção por todo mundo.

É fácil achar um produto de qualquer lugar do mundo em qualquer grande cidade, molhos italianos, queijos e vinhos franceses, quinquilharia chinesa, chás indianos, roupas vietnamitas são só alguns exemplos dos “made ins” do nosso dia-a-dia.

Mais do que o mundo globalizado atual, buscar especiarias de outros lugares do mundo foi o que inspirou as rotas de comércio e a expansão europeia pelo mundo, e no fim das contas nossa organização política e cultural atual.

Pensando nesse panorama é impossível não pensar nas espécies que junto com a integração mundial foram espalhadas pelo mundo.

A história da Apis

Carregar espécies nas navegações era de praxe. Sabe aquela abelha bem bonitinha que adora fuçar no refrigerante? Ela nem sempre morou no Brasil. A Apis Melífera mellifera é originalmente da Europa. Quem primeiro as trouxe para solo americano foram os Jesuítas, carregando enxames nas navegações, pois era com a cera de abelhas que eles faziam velas, essenciais para a vida naquela época. Depois, nos idos de 1800, outras colmeias foram importadas da Europa para a produção de mel por aqui.

Já a abelha que pica doído e é meio “nervosinha” também foi resultado de uma introdução de espécie. As Apis Melíferas Europeias têm característica de serem mais calmas e realmente picarem só em casos de ameaças. Já as Apis Melíferas Africanas produzem mais mel e são mais resistentes, mas em compensação também tendem a ser bem mais agressivas.

Essas também chegaram por aqui em 1950. Um estudo que buscava o aumento da produtividade de mel em terras brazucas trouxe algumas rainhas e colmeias africanas. Esse estudo estava localizado em Rio Claro – SP e a história conta que algumas colmeias Africanas “escaparam”, se espalhando e cruzando com as Apis Europeias que já estavam por aqui. Então hoje as abelhas mais comuns são Apis Meliferas Africanizadas, mistura das espécies introduzidas Apis Europeias e Apis Africanas.

E as abelhas brasileiras? O impacto da introdução de abelhas exóticas nas nossas abelhas nativas não é possível de calcular, pois ainda há espécies de abelhas nativas que foram recém descobertas e o que essa competição e convivência gerou é impreciso.

Mas é pouco provável que as nossa Melíponas Nativas sem ferrão não tenham sofrido com as mudanças.

Pesquisadores se ocupam de estudar a introdução de espécies exóticas, mas é possível traçar um paralelo com nossa própria excentricidade: a da espécie humana. Somos resultado da união entre homo sapiens europeus e americanos e a historia nos conta sobre conflitos sangrentos e extinção de alguns povos e culturas.

A história da Batata-Doce

A batata-doce viajou em uma rota completamente diferente. Botânicos e arqueólogos traçam a origem dela na américa, mas o que mais intriga é que pré-contato europeu as ilhas polinésias já cultivavam o famoso tubérculo.

Como a batata-doce viajou da costa Sul Americana- Peru, Colômbia e Chile para as Ilhas do Pacífico é um mistério, e essa foi uma das bases da teoria de Thor Heyerdahl para acreditar que os antigos Incas Peruanos foram os primeiros a encontrar novos territórios no Pacífico.

Para quem se interessar por essa história recomendo muito o livro Expedição Kon-Tiki, que conta a história da expedição que viajou o Pacífico em uma balsa rudimentar para provar que era possível.

Se foram os peruanos que chegaram as ilhas do Pacifico ou se foram os Polinésios que vieram até a América e voltaram ainda é um mistério, mas o que dá para afirmar é que eles viajaram levando espécies exóticas e introduziram em outros lugares.

E a Manga? Você sabia que ela é originalmente da Índia? A lista vai longe e traçar a origem de espécies é um trabalho árduo.

Então qual é o problema da introdução de espécies exóticas?

Acredito que a peça chave é a adaptação. Ela que determina a capacidade da espécie se alastrar no novo ambiente.

Não acredito na introdução controlada como sendo problema principal. As questões que podemos observar são o alastramento de espécies que se adaptaram muito bem.

Um exemplo são as Gramíneas Africanas. Primeiro elas podem parecer como a melhor solução para um pasto degradado: crescem com menos água, aceitam um solo menos adubado e rapidamente encontram o melhor ambiente para o seu desenvolvimento. Porém aos poucos vai se espalhando e ao dominar novas áreas viram um problema ambiental porque quebram o ciclo de recuperação natural, em que espécies nativas não conseguem se reestabelecer.

São ciclos que hoje conseguem ser observados, como o Ciclo Gramínea x Fogo (descrito por D’Antonio & Vitousek 1992). No início do ciclo a primeira queimada mata as espécies nativas, depois na regeneração natural quem ocupa o solo são as gramíneas exóticas, não permitindo a regeneração de espécies nativas. O tipo de matéria orgânica gerada pela gramínea facilita a dispersão de fogo e assim cria um ambiente onde a ela se mantém dominante nesse ciclo e não permite a regeneração natural do ambiente.

Esse é apenas um exemplo dos ciclos de invasão de exóticas.

Há vários estudos de casos onde se observa a perda de biodiversidade e o potencial de perda com a introdução de espécies exóticas. Temos o Pinus nas dunas do litoral, a Leucena em áreas de preservação, o Caramujo africano a Tilápia, e a lista vai longe.

Esse documento ➡️ Especies Exoticas e Invasoras em Unidades de Conservacao Federais no Brasilpdf começa a tentar traçar o impacto dessas espécies na perda da biodiversidade, um trabalho difícil, mas importante.

E aí? Devemos matar as Exóticas? Exóticas não servem para nada?

Muita calma nessa hora… Um dia desses estava pelo Instagram e em um post estava uma foto de uma Mangueira que tinha sido plantada em São Paulo em plena cidade e o texto achava um absurdo, “como o pessoal sai plantando espécie exótica sem pensar pela cidade…” e por ai ia…

Olhando a trajetória das espécies exóticas a pergunta é: Uma árvore que já mora aqui desde de 1600 e bolinha, integrada e adaptada pode ser considerada exótica?

Ou, em um mundo globalizado alguém ainda pode ser exótico?

E nós, falando Português, misturados com Italianos, Japoneses, Angolenses, Congolenses, Índios não somos um tanto exóticos também?

De certo que não vamos sair por aí caçando abelhas introduzidas e mandando de volta para os seus devidos países, nem vamos até a Polinésia dar uma lição de moral nesses navegadores que saíram introduzindo batata-doce nessas ilhas.

Com a nossa conexão global tentar controlar a circulação de exóticas é totalmente utópico, e pensando bem o que faz ser o que somos é essa mistura doida que o mundo é, não é?

Exóticas e a Agrofloresta.

No meu plantio agroflorestal tenho diversas exóticas plantadas e já visitei algumas agroflorestas, como a do Juã em Brasília que tem uma biodiversidade enorme e é tudo misturado, tem espécies exóticas, do Cerrado, da Amazônia, da Mata-atlântica é lindo de ver.

A questão é que precisa de manejo!

A Leucena pode funcionar em um plantio agroflorestal com manejo, mas se for plantada e largada em uma área de preservação ambiental as chances de ela se alastrar competindo com as espécies nativas é altíssima.

A Manga no meio da cidade é um problema? Na minha opinião não. Já estamos em um meio totalmente modificado, e não existe nenhuma árvore no meio da cidade que não vai precisar ser manejada pelo homem.

O Ernest tem uma frase bastante significativa para essa questão que é: Quem planta nativa é nativo!

Morcego, Sabia, Anta, Tucano, esses sim sabem como ninguém plantar nativa.

Permitindo o desenvolvimento da área e evoluindo do estágio de degradação as nativas reaparecem.

As exóticas levam vantagem em alguns aspectos. No plantio agroflorestal, por exemplo, o manejo é uma constante. Tirar e pôr espécies no local é um dos objetivos e desafios. Pelo lado burocrático o manejo de exóticas é facilitado. As exóticas podem ser cortadas e tiradas do sistema a qualquer momento, em contrapartida diversas nativas são protegidas por lei, nos deixando entre a cruz e a espada: quero melhorar o sistema, procuro biodiversidade, mas por lei não posso tirar essa ou aquela nativa do meu sistema.

Outro ponto é a adaptação. Em um sistema agroflorestal manejado o acúmulo de matéria orgânica que uma exótica pode proporcionar é enorme. Espécies como o Eucalipto, Acácia Mangium, Feijão Guandu, Mucuna entre outras se mostram excelentes alternativas: com crescimento rápido mesmo em solos pobres. Com o tempo a tendência é que com o acúmulo de matéria orgânica esses solos se tornem mais vivos e completos permitindo que as nativas se desenvolvam gerando um ciclo positivo e sintrópico em um efeito oposto do ciclo gramínea x fogo, por exemplo.

As exóticas são um problema? Em si não, mas tem potencial para ser. Ao introduzir uma espécie é essencial que haja manejo.

 

 

 

 

 

Pedro Savério Penna

Formado em Ecoturismo e com especialização em Marketing e Negócios, gerencia uma empresa de Pesquisa de Mercado. Vive divido entre São Paulo e Piedade no interior, onde desenvolve seu projeto Agroecológico.

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